dá um google

Março 11, 2009 por kátia mello

pra tudo nessa vida dá-se um jeito google. todo dia tem ocorrência bizarra nos links de entrada. mas hoje em particular tem duas muito incríveis. “ciúmes consideração ou imaturidade” (note que as palavras não são equivalentes no mundo do dicionário) e “cristiano ronaldo sabe oq é tpm?” (eu não consigo comentar).

eraser

Março 6, 2009 por kátia mello

It’s an eyesore
My head was shaved
It’s a pain sometimes I try to walk on by

A witness now in every place
A window broke I wonder what I get paid
Watch him die
A window now in every place
A witness spoke I wonder what I get paid
Watch him die

Wait for the foreman now get paid
Wait and see the list of shit you made
Gotta see my hearts a darker place
Gotta be my soul’s the one who pay

pá tudo fez sentido!

Março 5, 2009 por kátia mello

(prefácio: eu tenho um caderno, eu anoto tudo o que vem lá, as letras de música, os textos desse blog – ou não -, as pautas dos meus livros, as idéias da fabriquinha, as tristezas ardidas. eu tava vendo a novela agora e folheando esse caderno e li este trecho)

…desde muito nova eu sei que não sou gostosa. tenho primas mais velhas gostosas, meu irmão tinha playboys, enfim, eu sabia que estava longe de ser uma gostosa. quem me vê de costas pensa “oh uma inglesa” e quem me vê de frente  “oh uma somaliana albina”. não consegui herdar de meus antepassados italianos nada além do riso frouxo e da fala intensa das mãos. minhas mãos têm um lance peculiar, é como se escutassem o que eu falo e criassem desenhos invisíveis no ar compreensíveis somente para elas. eu sou repetitiva, devo ter falado umas 437 vezes sobre eu ter crescido só com meninos, eu jogava futebol, andava de skate, bebia horrores e às vezes pegava um ou outro porque afinal ninguém é de ferro. e os assuntos eram os de sempre, mulheres e futebol, enquanto eu era a pentelha do rock. com eles, aprendi a analisar uma gostosa. discordava ou concordava como se fosse um deles. então eu sei que eu não sou gostosa e isso nunca foi exatamente um problema. outro dia, conversando com s., surgiu uma frase como “mas você é outro tipo de gostosa”. “como assim?”. “outro tipo”. ficou no ar ébrio da noite, flutuou na minha cabeça por uns dias e voltou durante uma conversa com m. sobre honestidade. sobre sermos honestos com o mundo e consigo mesmos. dissertávamos sobre mostrar quem a gente é desde o início de qualquer relacionamento – seja um caso, uma paixão, uma amizade, um lance profissional – a gente decidiu e vem cumprindo à risca esse tipo de respeito que você pode ter para com o mundo e seus habitantes. porque na hora de conquistar algo ou alguém, de desejar tanto algo pra si, você acaba fazendo coisas não-cotidianas e que podem nem estar a par de suas crenças. e isso, exatamente por não ser típico da nossa conduta, caráter, personalidade, postura etc., acaba desaparecendo com o tempo. e o cotidiano devolve ao coração a chance de buscar as paixões arraigadas que ressonam…

pá! tudo fez sentido! foi nessa hora que eu entendi o que estava acontecendo. é estranho acordar. a primeira volta na montanha-russa foi melhor que a segunda porque eram duas montanhas-russas diferentes!

e esse trecho do texto caminha para uma conclusão gigantesca sobre encantamento que eu não vou reproduzir aqui porque é DEVERAS ridícula e neste momento a única coisa que eu quero fazer é escutar madonna fumando maconha dançando na sala aproveitando o calor.

prêmio dardos

Março 5, 2009 por kátia mello

já é a segunda  vez que eu sou indicada ao prêmio dardos e dessa vez resolvi embarcar nesse meme. a primeira indicação veio do multilinguista emocional Neo, do TOS, e agora veio a indicação do João, mineiro coração doce-de-leite que faz desenhos tão incríveis que eu chego a sentir uma invejinha do dom dele. teria de indicar 15, mas 10 tábom.

premiodardos

Com o “Prêmio Dardos” se reconhecem os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais etc, que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à web.As regras para o selo Prêmio Dardos são:
1 – Colocar a imagem do selo no seu blog;
2 – Linkar a pessoa que te indicou;
3 – Indicar mais 15 pessoas ao prêmio;
4 – Comentar no blog dos indicados sobre esta postagem.

 

Eu Dou para Idiotas - o novo vício se deu quando eu notei que a Pati é meu alterego. eu também dou para idiotas, com a diferença que eu não sei fanfarronear com tanta classe quanto ela.

Panela de Cobre – o Daniel faz pratos magnânimos, fotografa, coloca a receita e mata todo mundo de lombriga. além disso, é finérrimo em suas dicas culturais e na obsessão por lindas colheres de prata.

100 Mililitros – três gatas modernas misturam cultura pop, sentimentos, notícias esdrúxulas e coisinhas de mulher.

La Cucinetta - outro blog de receitas fantásticas. a Ana Elisa ama o que faz, dá pra ver pelas fotos dos seus pratos e pelos seus textos que misturam história, técnica e a descoberta do mundo gastronômico.

De(coeur)ação -  eu poderia decorar minha casa inteira com as dicas da Vivianne, blog lindo de olhar e de ler.

Don’t Touch my Moleskine – a Dani provavelmente não faz nada o dia inteiro naquele emprego moleza dela e fica achando um monte de pérolas pop de música, de cinema, de literatura, de fotografia, de design, de vídeos engraçadinhos…

Guaciara – os gêmeos Mesquita fazem crítica de tudo, meio escola de frankfurt, meio de esquerda, e me tiram do rock, da pintura e do cinema de sempre.

Be My Head – o que o Dago sabe de música eu ainda não comi de arroz. e os vídeos e links que ele posta são garantidos, sempre.

Sorry, Periferia – o Vives faz piada de política, de cultura, de cenas cotidianas, de sonhos surreais, de futebol etc. porque vive tudo isso. na maciota, é claro.

Veneno do Bem – Fabrício tem veneno anti-senso comum, anti-falta de consciência, anti-idiotia deliberada, com link pras fotos inacreditáveis que ele faz.

das lacrimais

Março 5, 2009 por kátia mello

gabopinotti

gabo morales enxerga poesia aonde quer que seus olhos toquem.

paz espiritual

Março 4, 2009 por kátia mello

como diz o dago, bom dia!

refresco dos olhos

Março 3, 2009 por kátia mello

vital-lordelo1

essa e outras colagens, ilustras e fotografias lindonas do Vital Lordelo podem ser apreciadas aqui. ele também fez o cartaz da festa nova da Alavanca, que vai estrear essa sexta no Inferno. colalá que vai ser tri.

querida São Paulo,

Março 2, 2009 por kátia mello

por favor pegue fogo. inteira. com tudo dentro. obrigada.

reverbere

Fevereiro 19, 2009 por kátia mello

adoro que alguns posts reverberam e viram conversê depois. como hoje.

ele: mas como uma mulher merece ser comida?

eu: com vontade!

simples assim.

enquanto eu transcrevo o texto novo, vai lendo esse blog aqui. essa mina é um gênio.

nossa gente,

Fevereiro 17, 2009 por kátia mello

como esse blog tá cuceta! tá parecendo diário da princesa versão velas de mel com banho do óleos aromáticos. que monte de bobagem romântica, né, até parece que eu sou assim, até parece que eu costumo me doer horrores com rejeições (distância é bem diferente), até parece que todo mundo que eu pego é legal e merece um blábláblá pretensamente literário. balela. tudo teatrinho pra eu ocupar a cabeça – que de fato só pensa em panelas, receitas, filés de novilho, syrups de mate e na maionese caseira perfeita. e no livro que eu vou escrever. daí hoje tá calor, não tem nada pra fazer, fiquei lendo uns textos e linkando com uns pensamentos que podem ser resumidos em pequenas notas corretivas, tipo um grande ERRAMOS do Mágoa, um erramos psicológico-sentimental-piada-interna (pra ser bem honesta esse blog é só a minha sessão de terapia).

I. professorinha?

nem se eu passasse um ano o ensinando tudo o que eu sei sobre sexo esse ser humano seria capaz de comer uma mulher do jeito que ela merece ser comida.

II. tonta!

fiz discursinho sobre eu me fazer de boba um tempo atrás, balela também, eu sou naturalmente tonta. e só fui notar isso quando eu vi que nunca tinha me enganado sobre você e sua indescritível soberba.

III. não é o amor

não é o amor que é uma fatia de maçã. é a afliceta, que oxida, fica marrom, apodrece e morre.

fragmento

Fevereiro 16, 2009 por kátia mello

eu ando toda fragmentada. meus sentimentos estão todos quebrados dentro de mim por variados e incontáveis motivos. o amor anda se doendo e se sarando em quebra-cabeças de seis mil peças, o pensamento se organiza de maneira analógica, os encontros mais parecem incursões de auto-conhecimento do que simplesmente diversão, quando eu decido respirar ou falar meu peito se comporta como um soluço, a saudade me mostra que não dá para ter um colo em cada porto. e na vida real eu não consigo desembaralhar as paixões e torná-las viáveis. por fim. não estou nem conseguindo escrever, tamanha a energia que tenho despendido encontrando soluções para outras vidas. eu escrevi isso pensando nele e o começo e o fim não fazem o menor sentido (mas esse fragmento, como tudo que se compõe aqui dentro, faz).

…foi naquela hora que eu dei uma tragada no baseado e engasguei, tossi até quase cuspir meus alvéolos – que palavra bonita, alvéolo, deveria servir para outras coisas, como “usava nos cabelos dois alvéolos doirados muito belos” ou então “finalizou os docinhos com bico-alvéolo, desenhando pequenas flores de cinco pétalas, as que sempre terminam em bem-me-quer”.

amortecendo

Fevereiro 7, 2009 por kátia mello

anteontem à noite quando não parecia tão próxima a hora da morte, recheei meu peito com estopa grossa e pensei que, estofado, não se ocuparia de outras bolas de algodão, de outros retalhos, de outros panos velhos, mas foi só mais um engano, um engano cotidiano, desses que acontecem nas tardes quentes em que prestamos mais atenção ao bolo que está sendo assado do que aos chiados estáticos da nossa pele. de nada adiantou; promover um canto confortável e macio para alguém, criar teias intrincadas de sentimentos, furtar para si o que ela tem de mais genuíno e doar para ela o que você tem de mais quente, de mais borbulhante, de mais perigoso; isso não adianta nada, os tecidos seguem agregando seus pedaços perdidos no mundo, incorporando para si os milhões de fios de seda, de algodão, de lã, de linho e constituindo lá dentro a estopa que protege meu peito das friagens, das bruscas quedas de temperatura, das ventanias, das geadas e de toda a sorte de variações climáticas possíveis. você, agora, pode voar como uma criança feliz que pula do telhado com um guarda-chuva acreditando que vai alcançar vagarosa e calmamente o chão e não vai machucar os dois joelhos, você pode, porque agora eu enchi o peito de estopa e talvez isso afofe suas quedas pelos penhascos da cidade, amortecendo com zelos de rendeira os sentimentos que eu tenho por você. dessa vez, e só dessa vez, você não era pano, era o contrário disso, era o delírio de uma tarde sem sedativos, era a tentativa do último gole de cachaça que faz voltar à terra todo o resto do litro, era a gota de chuva que pega singularmente na nuca e escorre pelas costas por dentro do casaco, era saudade que deita o mais forte dos homens em febre terçã.

- você ventou em mim.

dos processos químicos inevitáveis

Janeiro 21, 2009 por kátia mello

eu curto biologia, química e física. no colégio eles fazem tudo errado, tentam reduzir essas ciências a fórmulas, números e palavras difíceis e a gente não consegue amá-las como se ama o rock ou fazer churrasco com os amigos (na laje, no quintal, na varanda, na piscina, na lavanderia de um apartamento suburbano, pouco importa: um churrasco é sempre um churrasco), mas nem por isso elas deixam de existir, você é todo feito de carbono e hidrogênio – como qualquer ser vivo ou não -, mas você não precisa saber, mais porque você tem outras maneiras de julgar as coisas do que por conhecimento indissociável, e a vida segue bonita e feliz. até você ter um lance correndo nas suas veias que não é inato a você, que não está em sua essência – então eu saio insana atrás de explicações do porquê eu choro ridiculamente com comerciais coloridos de TV, ou do porquê eu acordo querendo massacrar a humanidade, ou porquê eu sinto frio quando eu fico muito triste (essa é a mais bizarra).

I. Considerações gerais sobre o ciúme

eu sou touro com ascendente em escorpião, todo mundo que lê isso aqui sabe. é normal eu escutar um “você é o demônio” quando eu falo sobre isso. não sou. quer dizer, sou um pouco possessiva com as “minhas coisas”, mas só o tanto que meu superego totalitário permite, eu empresto livros e discos com dor no coração, mas não o faço de cara feia, e com as pessoas eu tento fazer a mesma coisa. mas quando meu inconsciente encana que tem algo saindo do meu controle, meu organismo começa a entrar em colapso: uma vez eu tive uma crise de ciúme que eu tremia inteira, até o queixo – e estava uns 30º C -, meu estômago apertava e a vista começou a turvar numa sensação de desmaio eminente, mas eu me mantive quase lânguida e quase bela (até chegar em casa haha) e uma outra vez eu sentia dores que irradiavam dos ossos da caixa toráxica por todo meu peito, barriga, ombros e braços e eu fiquei fraca – o ciúme chega em seu cume quando vem a sensação de desmaio – e dessa vez eu fiz tanto esforço para manter a dignidade e a pose que segurei o choro por uma hora e meia – que foi quando eu cheguei em casa e bradei toda a minha fúria adolescente para as paredes. mas, veja bem, os surtos são raros e completamente químicos: estudos dizem que uma pessoa é mais ou menos ciumenta de acordo com uma combinação de fatores que resulta na maior ou menor produção dos neuro-hormônios catecolaminas – como a adrenalina e a dopamina – e quem tem produção em menor escala costuma sofrer mais com os males do coração e da alma. eu nunca neguei que tinha o peito frágil, né?

II. Considerações gerais sobre a paixão

A paixão é, talvez, o mais puro dos processos químicos. simplificando bastante, seu cérebro reconhece no rosto – simétrico, na maioria dos casos – do objeto de paixão um parceiro reprodutor saudável que te dará descendentes férteis, belos e geneticamente mais evoluídos – tem estudos que dizem que pessoas escolhem pelo cheiro parceiros com sistemas imunológicos diferentes do seu, apesar de alguns cientistas dizerem que nem todas as pessoas têm o órgão vomeronasal (ou OVN, o receptor capaz de reconhecer e decodificar o feromônio alheio) desenvolvido. depois do processo de cheiros e olhares, fodeu. quando você encontra a pessoa suas mãos suam, rola frio na barriga, você treme, fica idiota e um simples oi no msn parece uma festa de recepção calorosa com honras de chefe de Estado. parabéns, neste exato momento seu corpo está literalmente LAVADO pelos hormônios oxitocina (que causa o prazer) e vasopressina (que aumenta a pressão arterial) e pelos neurotransmissores dopamina (que também aumenta a pressão e os batimentos cardíacos), noradrenalina (que chega louca tentando controlar sua pressão) e endorfina (que deixa a gente boboalegre). mas não é só isso: os efeitos colaterais são insônia, perda de apetite e taquicardia, entre outros. os efeitos são tão nocivos ao organismo que uma paixão dura, no máximo, 18 meses. senão haveria, sim, morte por amor.

daí eu já não quero mais gostar da pessoa, mas o processo químico está lá, bombando, a pessoa aparece e os hormônios se despejam todos, sozinhos, via artérias, veias e linfas e alcançam cada célula e neurônio deste corpo, me devolvendo a um profundo estado de insanidade, de querer a pessoa do fundo do meu âmago, de viver e morrer por ela e toda aquela coisa de sempre. puro processo químico do mal.

III. Considerações gerais sobre a TPM

Todo bípede adulto humano minimamente pensante deveria saber que as fêmeas desta espécie costumam menstruar a cada 28 dias, em média. e que esse ciclo é muito simples: divide por dois, entre os dias 1 e 14 os ovários estão em festa, tem um monte de hormônios chegando por ordem da hipófise e eles fazem de tudo para expelir um óvulo, uma pelotinha linda e dourada que contém a carga genética da fêmea e espera sua outra metade para se desenvolver. entre os dias 14 e 28, meu amigo, é só ladeira. com aquele óvulo não-fecundado ali boiando, o corpo despeja estrogênios e progesteronas em busca da não-ovulação e esses hormônios vão diminuindo no sangue até a próxima mentruação. essa gangorra da hipófise causa alterações de humor, irritabilidade, dores de cabeça e nas costas, inchaço etc. como os sintomas dependem da progesterona – essencialmente da falta dela -, eles variam de ser para ser, por isso que tem gente que chora com a novela e tem gente que mata o marido durante a TPM.

puro processo químico. a vida é puro processo químico.

*os textos não são necessariamente científicos (apesar de todos os estudos e químicas apresentadas serem reais e prováveis), então fazfavor de não roubar pro seu trabalho de biologia.

por quem andamos bebendo demais

Janeiro 16, 2009 por kátia mello

“refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo

fazia frio em São Paulo
nevava.
o medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça”

_carlos drummund de andrade, 1945

ele ligou. passei semanas esperando que ele ligasse e, quando ele ligou, não consegui atender. fiquei segurando o celular, silencioso, olhando o nome dele no visor, piscando. ele ligou. o que ele ia falar para mim? pra onde ele ia me levar? a gente ia tomar um café? eram 11 e 40 da noite, o que as pessoas podem querer às 11 e 40 da noite? e se eu atendesse, aonde iríamos parar? eu travei. de novo. é um querer tão grande que não consegue deixar de ser só um querer. tem medo de se tornar realidade, de macular o pensamento de tanto tempo, tão bem construído, tão perfeitamente desenhado na minha cabeça. se eu atendesse, todos os meus curta-metragens mentais apagariam, não haveria mais uma história bonita pra contar. ou não. ou fosse do jeito que era pra ser, ou fosse ainda melhor do que minha minguada criatividade projetou. eu entrei em pânico com o celular na mão. seu nome piscando. tanto silêncio na casa vazia. quando você parou de chamar eu senti um alívio. como se eu tivesse finalmente me beneficiado da minha imaturidade. eu não fui mulher o suficiente para falar com você. eu não tive colhões de aceitar ou negar nenhum convite que você faria. nem de ouvir sua voz, que assim que alcançasse meus ouvidos, me faria querer estar com você, me lembraria o seu cheiro, me avivaria a textura das suas mãos, a maciez de suas falas. não atendi porque te ter seria perder a nossa tensão sexual para sempre.

e agora eu estou aqui. feito um pedaço de existência, perdida, sem conseguir escapar de mim para chegar até você. mas eu vou te ligar, eu vou te falar que o que eu posso te oferecer é só amor, nem mais, nem menos, apenas amor, o amor perfeito, platônico, tácito, contemplativo, leal, honesto, um rio que se mede em volume d’água, que se derrama pelos poros e pelas mucosas, só o amor e nada mais do que isso e que eu espero que você aceite esse amor, porque ele não está fazendo mal a ninguém além de mim mesma. mas o medo não deixa. o medo é anterior a tudo isso, a qualquer pensamento, a qualquer idéia de fuga ou de enfrentamento. o medo existe antes de você existir e ele não vai deixar que eu me aproxime, que eu atenda o telefone. então a gente segue bebendo demais, porque dá coragem. quem sabe um dia ele liga e eu atendo? bêbada, claro.