a cadela

By kátia mello

eu sempre lembro da cadela. uma hora antes de deixarmos a cidade, ela se prostrou, resignada, no lavabo de fora da casa e se colocou a apenas nos observar arrumar as coisas. enquanto ele caçava borboletas do outro lado do jardim e se encantava com um velho balanço lodoso, eu estava lavando o recipiente de água dela em um tanque em frente ao lavabo. me bastava um soslaio à direita e eu a via, via sua cara de tristeza, seu sofrimento puro, sua respiração pesada de saudade antecipada, sua raiva muda por estarmos a abandonando. a cada 3 ou 4 minutos ela soltava um chuinf abafado, como uma criança que chora escondido dos pais antes de dormir. cada vez que eu olhava pra ela, meus olhos ardiam e inchavam de um líquido que parecia lágrima de água-viva, daí eu mirava o teto e deixava que o meu rosto se alimentasse daquilo, sem verter maçãs abaixo. a cadela sabia que a gente estava indo embora. ninguém teria como avisá-la. bastou a ela o nosso movimento, as nossas feições murchas, para que ela soubesse que estávamos a deixando – eu para todo o sempre, depois de tê-la conquistado com mortadela e chilli beans. como a cadela, eu não precisei escutar nada. eu senti tudo. e sabia sem saber. e a tristeza dela talvez fosse tanta como a minha, mas talvez fosse menor, porque eu sabia que, ao atravessarmos aquele portão, nós estaríamos fatalmente distantes para todo o sempre. e o amor, nessas alturas de urubu não ir, não passa de resignação.

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2 Respostas para “a cadela”

  1. Ana Disse:

    Nossa, me lembrou a Leen…

  2. kátia mello Disse:

    né?
    leen era foda.
    que deus a tenha no céu dos gatos.

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