das pendengas invejeiras

By kátia mello

eu parto do pressuposto espiritual de que se estamos neste planeta é porque somos seres involuídos. ainda mais em cidades como São Paulo, morar aqui é queimar karma, só pode. por sermos seres involuídos e infinitamente inferiores, sentimos raiva, paixão, ciúme e, por que não?, inveja. sim, todos sentimos invejas, uns mais, outros menos, tem gente que libera isso em forma de olho gordo, tem gente que aceita a inveja e guarda. eu não tenho muitas invejas negras, a maioria delas são brancas e brandas, como dos moradores de jericoacoara ou de nova york, ou de quem tem tatuagens lindas, ou de quem sabe se vestir bem. mas ele me causa uma inveja negra fudida, não sei nem medir esse tamanho de inveja profunda e raivosa que se alimenta dos meus mais genuínos e puros desejos. me peguei o xingando outro dia, só porque tenho inveja. tenho inveja que ele fica o dia inteiro cozinhando, tenho inveja que os pais dele têm dinheiro para mantê-lo em casa com as mais belas louças do mundo, com os mais nobres ingredientes e com os mais sofisticados utensílios de cozinha. morro de inveja quando pego a minha escumadeira de alumínio que queima a mão no meio da fritura, ou quando os cabos das minhas panelas vagabundas quebram, ou quando eu queria muito uma balança digital com precisão de meio grama, ou quando o meu pau de macarrão se parte em 6 enquanto eu abro uma massa. tenho inveja dos azeites de 180 reais que eu nunca nesta década vou comprar, tenho inveja que ele não precisa trabalhar pra pagar as contas e, por isso, tem tempo de fazer sobremesas lindas e saborosas, entre outros pratos que enchem os olhos e o coração com tanta beleza degustável. só pra constar, a gente não se conhece. se eu o conhecesse, a inveja se transformaria em orgulho, porque é isso que eu sinto pelos amigos que fazem coisas legais. mas eu sei umas coisas da vida dele, eu sei que ele é sociofóbico e tem poucos amigos, eu sei que ele tem depressões e angústias gigantescas, eu sei que a felicidade dele é abstrata e distante. agora me pergunta se eu troco a minha vida de pobre que pega o busão todo dia e atrasa faturas e contas, mas que tem amigos tão amigos que comem qualquer porcaria que eu faço – e ainda elogiam – pela vida dele? não troco. não troco minha vida suada pela vida “fácil” dele por nada neste mundo. não troco as festas frenesi na casa do mancha, não troco as jântas com 30 pessoas que dividem pratos e talheres sem nojinho, não troco as baladas de 20 reais (e ainda assim bem bêbadas), não troco esse riso frouxo que ganha o coração de sogras e crianças, não troco as noites frescas na varanda movidas a piadas e bobagens por uma vida glamurosa e solitária na cozinha nem fodendo.

eu não sei quem (nem de qual religião) me falou que nosso espírito vem ao mundo sabendo do nosso destino. eu acredito tanto nisso, principalmente quando acontecem dejà vús intensos. pelo jeito eu escolhi ter amigos de verdade. e isso não tem conta bancária no mundo que compre. do que eu tava sentindo inveja mesmo?

ps. e nada, absolutamente nada, paga uma discussão entre eu, goos, mancha e tomaz sobre quantos gramas de arroz cabem num copo de requeijão. com gente assim na vida, quem precisa de uma balança digital?

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5 Respostas para “das pendengas invejeiras”

  1. mancha Disse:

    acabei de receber um convite do inmetro para trabalhar lá, de consultor. sou foda!

  2. kátia mello Disse:

    hahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaha
    chama o tomaz tb!

  3. goos Disse:

    HAHAHHAHAHAHAHHA

    all you need is love, foody & party

  4. kátia mello Disse:

    f-f-f-f-foodyyy, love & party
    vou fazer um rap.

  5. Pati Disse:

    O alvo da inveja e’ quem eu to pensando que e’?

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