“Todos os poemas são o mesmo poema,
todos os porres são o mesmo porre,
não é de uma vez que se morre,
todas as horas são horas extremas”.
_mário quintana
certa feita ele laureou a música dizendo que só as canções não vão embora sem dizer adeus, quer dizer, elas não vão embora. elas te amam à maneira delas, encarrilhando da forma sentimentalmente adequada sete notas, atingindo com perfeição suas células auditivas e percorrendo com destreza seus neurônios até alcançarem áreas delicadas como o mesencéfalo, fazendo seu cérebro despejar quantidades inacreditáveis de dopamina e serotonina – hormônios neurotransmissores responsáveis, respectivamente, pelo aumento dos batimentos cardíacos e pela sensação de felicidade -, e o córtex pré-frontal, que se prontifica a dar respostas afetivas aos estímulos externos advindos de diversas fontes. isso tudo pode rolar com uma barra de chocolate, em um encontro com a sua paixão platônica, com uma dose de ecstasy, quando você toma a primeira cerveja da sexta-feira, mas invarialvemente acontece comigo quando eu vejo um show do Holger.
é sábado, nem 2h30 da madrugada, Água Branca, São Paulo. caixas vazias de pizza se empilham num espaço escuro do pré-backstage. no canto do palco, cinco meninos se abraçam e parecem fazer ali a prece pré-final de copa do mundo – os olhos deles brilham enquanto eles decidem entre si que aquele show vai ser foda, porque é o último do ano, porque é o último dos 21 shows feitos em 2008.
na platéia, pouco mais de 40 pessoas que estão ali porque aquilo é uma religião. é quase silencioso o ambiente, é quase a premissa de uma celebração, é quase um pressentimento dos cultos e ritos que vão reger os próximos 30 minutos.
antes eu lembrasse a ordem das músicas. como eu estava em festa, tinha bebido demais. mas pouco importa. a sensação que eu tenho quando eles começam a tocar é que eu sou infinita, é que não há chão ou céu, que não há atrito nem estática, há apenas a música gigante e perfeita que eles fazem, há apenas muitos e muitos kilowatts de energia rolando em todo o ambiente – e isso é nitidamente notável na diferença entre as canções gravadas e as ao vivo, num palco eles ficam monstruosamente maiores, como se captassem de volta todo o amor que eles pretendem pregar nas apresentações, tudo isso encabeçado pelos frontmen Marcelo e Pedro – o primeiro um James Dean dos tempos modernos, que passeia com seu banjo pela platéia e abraça as pessoas, o segundo um líder sorridente que parece fazer mágica ligando espiritualmente os presentes e botando nas cordas vocais toda a sua felicidade e tesão de estar ali.
some tudo isso à uma considerável dose de estamina adolescente, àquele impulso hormonal de flanar ao sabor das paixões, e assim eles flutuam nas próprias notas que produzem, e o resultado é uma anarquia musical que beira o pop perfeito e grudento (como em War, Surfing e Brand New T-Shirt) coletado de referências variadas dos ícones indies dos anos 90 – e sem soar datado.
por isso a citação de Mário Quintana ali em cima: todos os shows do Holger são o mesmo show, a mesma celebração que parece agradecer e abençoar a ciência de as músicas nunca irem embora – não sem ao menos dizer tchau -, e na qual todas as horas são extremas – impulsionadas pelo fato de que, sem paixão, pouca coisa funciona.
Tags: celebrando o amor com o ursão, holger, mário quintana, músicas nunca vão embora
Dezembro 23, 2008 às 4:14 pm
Belas palavras, fiquei lisonjeado.
Dezembro 23, 2008 às 6:53 pm
holger = amor
Dezembro 24, 2008 às 2:05 am
Ursão mudou minha vida para melhor… sem a menor dúvida. Mazel Tov.
Dezembro 26, 2008 às 2:54 pm
Viva a música, e os shows…
E Quintana…
E os poemas
E os porres
E as horas…
E chega…
Beijo
Neo
Fevereiro 18, 2009 às 8:54 pm
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Fevereiro 27, 2009 às 9:12 pm
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