duas belezas delicadas

By kátia mello

têm assuntos que a gente não consegue fugir. por mais que a gente queira não pensar, as coisas acontecem mais ou menos como um acidente, elas caem na nossa vida e às vezes passam de meras paixões para grandes histórias de amor. é o caso do Beirut. o amor, O AMOR. paixões temos a granel, aos punhados vazando pelos bolsos, mas amores são mais difíceis, são como aquelas orquídeas de clima temperado que decidem nascer em pleno verão tropical e ali ficam, se agarram, não se deixam vencer.

eu não queria pensar sobre o Beirut, porque isso pode matar o sentimento, isto é, nada do que eu escrever vai ser meramente próximo a o que sinto quando começa Postcards From Italy ou Elephant Gun. como você descreve isso: fiquei um ano sem escutar o Gulag Orkestar, numa tarde baixei as faixas e, ao primeiro acorde de Postcards, duas lágrimas gordas e pesadas caíram de cada olho, ao mesmo tempo, enquanto algo parecido com um calor confortável tomava conta de tudo que se esconde entre meu ventre e minha nuca, e um nó fechava a minha garganta para que tanto sentimento não explodisse e me fizesse gritar de alegria.

essas músicas são uma saudade que a gente não sabe de onde vem, não exatamente do que tivemos ou não, mas uma saudade de ter o peito fervendo, uma saudade de ter o espírito calmo e festivo ao mesmo tempo; tenho a mesma saudade quando escuto os afro-sambas do Vinicius, saudade de poder ter sido aquilo, de poder sê-lo sem me desamarrar de mim, porque música é você, você é o que você escuta.

não tomem isso como verdade universal, eu analiso pessoas pelos sapatos que elas usam e pelas músicas que elas escutam e – não, não, não e não – nunca me daria bem com uma pessoa que não sente nada pelo Beirut mesmo que ela tivesse calçando um adidas campus de pelica da safra de 84.

eu tenho muitos amores por aí, amores novinhos em folha que quando tocam no rádio ou na vitrola me pegam pela jugular, mas o Beirut é tipo aquele menino que você paquerou durante toda a sétima e oitava
série e, mês passado, encontrou no metrô e tudo renasceu em você, como uma nova primavera antecipada. Beirut é um remédio. não importa se você está feliz ou triste, aquele trompete não sabe da sua dor, aquelas letras não sabem das suas nostalgias, mas eles conseguem chegar num lugar que poucas bandas e pessoas conseguem acessar tão gratuitamente.

e, por fim, eles têm o que vem faltando ao mundo: honestidade. a honestidade adolescente de mandar uma carta de amor com perfume, de ficar bobolhando pra pessoa que passa e te ignora, de sentar no parque só para gastar seu tempo com sonhos, de deixar o sorvete escorrer pelo braço, de ficar feliz com um cartão postal, de enfrentar uma bebedeira homérica, de dançar com a alma, de não ter medo de sentir e poder ser o mais humano dos humanos quando se trata da tristeza deixada por alguém que foi embora.

* * *

Aspen é como uma noite fresca com lua e trilhares de estrelas dançando no céu, jantar festivo com os amigos ao ar livre e cicatrização de feridas muito antigas, do tempo que a gente bebia água pura do poço e acordava com o galo, que cantava logo que o primeiro raio de sol se atrevia a rasgar de vermelho o horizonte azul-petróleo. e sabe quando você já não vê mais beleza em nada, que tudo parece calculadamente melancólico ou desesperadamente nostálgico só para angariar meia dúzia de adolescentes bobos ou para preencher a lacuna do desesperados, e que a música já não parece mais ter sentimentos, só pretensão?

então. daí chega o Aspen, o avesso de tudo isso. desde Lulina eu não ficava tão hippie e com o peito tão cheio de flores e pássaros, sentindo tanto amor raro e abundante, querendo tanto fagocitar as canções e as intenções, achando tudo tão honesto (no mundo de hoje, idoneidade tem, mas acabou) e tão certeiro e tão preocupada em não perder nenhum show que, sim, eu estou matando trabalho para falar sobre isso.

porque a humanidade perdeu seus valores verdadeiros, só se pensa em dinheiro, no emprego que paga seu salário, nas contas no fim do mês, no que o tutu comprou e deixou de comprar, parece que todos reduziram seus passos e avanços a o que o dinheiro pode agregar ou oferecer (e isso me deixa extremamente triste e desapontada), então, sim, eu ainda tenho coração e me sinto no direito de matar meia hora de trabalho pra falar que o mundo tem outras belezas e outras felicidades que o dinheiro nunca vai comprar.

Aspen é exatamente a felicidade que não se compra, nem com a maior montanha de dinheiro do mundo. é melodia que entra pelos poros até alcançar seu hipotálamo e então um mar de hormônios é despejado na sua corrente sanguínea, amolece seus músculos e relaxa seus nervos a ponto de te fazer soltar um sorriso, não um riso rasgado ou frouxo, um sorriso leve, de criança, rosiano, confortavelzinho, com jeito de folha caindo, que vem lá de dentro.

se fosse uma fotografia, ainda, Aspen seria uma polaróide velha, manchada do tempo, com as cores ocultas de Sebastião Salgado e a brincadeirice de Miró, marcas de dedos, muitas marcas de dedo, porque é aquela foto que você sente um afeto quando olha, então você pega com freqüência, e ela guarda em si toda uma carga de sentimentos e histórias do mundo.

eu não sei porquê eu nunca tinha falado deles. semana passada eu fui vê-los na Folk This Town e a cada música eu me convencia mais de que o mundo precisa deles, de que eles são magnanimos na arte das canções despretensiosas feitas com o coração. e não pense que é puxa-saquismo. nem é. não gasto meus dedos falando de bandas que não valem a corda do violão que tocam. mas Aspen vale. vale na insônia, vale no crepúsculo, vale no peito, vale no sempre.

Tags: , , ,

9 Respostas para “duas belezas delicadas”

  1. Ana Disse:

    q intensidade!!!!!!!!! deu vontade de ouvir…bjks

  2. k. Disse:

    ó, aqui: http://www.myspace.com/beruit

    lindo de morrer.

  3. Laura Disse:

    a coisa mais linda, um presente para a coragem, sem preço e precioso. um abraço com o peito cheio de esperança. Laura

  4. katianogueira Disse:

    =)
    cheio de esperança, sempre, por favooooor.
    beijo!

  5. Amauri Gonzo Disse:

    girl, quando tu escreve assim, me dá vontade de desistir de ter blog. eu sei que tenho mil justificativas pelo atraso: faltadecomputadordeinternetdetempodesacoeetc. mas quando leio algo assim, achoq ue é medo mesmo. tu é gênia, filha. quer fazer uma revista comigo?

  6. k. Disse:

    claro que quero!
    bora!

  7. Amauri Gonzo Disse:

    pediu, ganhou. vai ler o blog lá! agora!

  8. Ana Disse:

    Ameeeeeeeeeeeei! Bjks

  9. michael Disse:

    Tava passando a agenda pro meu celular novo e troquei a katia mexicana por katia hippie… mas depois de ler esse post vou voltar o nome pra katia mexicana mesmo.

Deixe uma resposta