eu sou uma ilha. e são poucos os que não naufragam tentando chegar até mim. há os que morrem na praia, bem perto de me alcançar. mas há os que chegam vivos e quase ilesos e aqui ficam para sempre. há os que eu resgato e puxo para terra firme, há os que eu espero a ressaca do mar levar pra longe.
mas há dias em que sou um país inteiro, e nestes dias todos são bem-vindos. mas, como todo país, há os que se perdem, há os que se mudam para o interior, há os que escolhem vivem paralelamente. quando volto a ser ilha, seguro os cidadãos ilustres.
é assim que fagocito pessoas. porque eu não tenho outro objetivo nesta vida senão deixar que as pessoas se derramem em mim. mas só as que chegam na ilha. então eu posso acolhê-las e engoli-las à vontade, tomar emprestado referências, livros e amigos, dividir segredos e bebidas, oferecer colo e casa quando necessário, ser menos robótica e me derramar um pouco sobre elas.
todos somos ilhas. algumas rodeadas de águas calmas e verdes, algumas protegidas por arrecifes, algumas longe demais do continente, algumas recheadas de mistério. eu sou uma ilha rústica, com pouca vegetação e sem nenhuma infra-estrutura. e, ainda assim, há quem queira morar aqui. e são essas pessoas que importam. definitivamente, são só elas que importam.
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