o caderno +mais de ontem colocou Guimarães Rosa e Machado de Assis no ringue para discutir quem é o maior da literatura brasileira. na capa, a manchete “machado supera guimarães” cospe o que vem pela frente.
mas não é a matéria em si que quero discutir. antes mesmo de chegar na página 4, pensava “é impossível comparar os dois. é como colocar o Velvet e os Beatles para brigar: quem é melhor nas melodias e nas letras fofas, o McCartney ou o Reed? quem experimentou mais, o Lennon ou o Cale?”. são bandas tão distintas, que seguiram escolas tão diferentes, que você não coloca em cheque quem foi maior.
assim é com Rosa e Machado. a primeira crítica que eu li, claro, foi de Antonio Cândido, que é praticamente uma entidade e quando eu crescer quero ser como ele. ele diz “uma das coisas que mais enriquecem a literatura brasileira é o fato de haver nela dois escritores tão grandes, mas tão polarmente opostos quanto o parcimonioso Machado de Assis e o derramado Guimarães Rosa”.
fato. eles são de escolas diferente. tão diferente que Machado desfilou por todos os estilos de literatura, fez prosa, poesia, conto, romance, crônica, teatro. Rosa destrinchou a língua sertaneja e brasileira em contos, milhares deles, e só um romance. o primeiro livro de João foi de poesia, o Magma. ele nunca mais se atreveu, e, apesar de Magma ser uma pérola, ele o renegava.
um segundo problema -no caso da +mais- são as obras votadas. é tanta gente babando um ovo no Machadão, que Rosa sai com dois títulos somente: Grande Sertão: Veredas e Meu Tio o Lauaretê.
olha, falo por mim: quando preciso sentir, é a João que recorro. é João que me devolve a luz do dia, que me devolve a esperança, que me devolve a ternura, que me faz ter vontade de escrever, mais, que me faz ter vontade de ler.
Machado de Assis me lembra uma outra teoria: a de comida para adulto. funciona assim: quando você é criança, não gosta de berinjela, de abobrinha, de rabada, de costela, de olho de sogra e de outras comidas de adulto. é simples: seu paladar deve ser treinado para gostar desses alimentos. são sabores difusos, complexos, e deve-se ser praticamente um ’sommelier’ da boa cozinha para apreciar esses pratos profundamente. Machado não faz uso de linguajar extremamente elaborado, mas é dono de um “estilo elegante, o raciocínio fino, o comentário irônico, o humor ático, o ceticismo engenhoso, a habilidade de fazer e desfazer o romanesco sem perder o fio da meada” (segundo o professor Alcir Pécora). isso você não saboreia na infância, nem na adolescência. é preciso ter vivido bastante coisa, é preciso entender a irônia e a fineza de Assis para saboreá-lo. Machado é comida de adulto porque todo mundo aprende a amar Machado. é fácil demais amá-lo, assim como amamos Fernando Pessoa e Shakespeare.
já Rosa, não. é preciso que você tenha coração – e não somente isso – para que ele faça sentido. além do mais, “Rosa finca raízes na construção de uma experiência de linguagem que se converte em experiência do mundo, potenciada pelo mito e pela poesia” (segundo o professor Alcides Villaça). o que João faz com as palavras e com as não-palavras você ainda não experimentou fazer com seus filhos num sábado no parque. ele brinca deliciosamente com a nossa língua -coisa que o tio Assis jamais admitiria.
então não tem briga, minha gente. João é João, Machado é Machado. os dois são gigantes e, como disse Villaça, “como a pergunta não esclarece se o padrão de medida é a extensão ou o volume de água, fiquemos com esses dois rios imensos”.
aliás, tive uma idéia. vamos colocar no ringue todos os Andrade? o Mário, o Carlos e o Oswald. eu fico com o Carlos. e você? ;)
Tags: João Guimarães Rosa, Machado de Assis, Preciso reler Dom Casmurro, qMas eu amo mais o Primeiras Estórias
Junho 24, 2008 às 10:11 am
Velvet é melhor que Beatles, sem a menor dúvida.