lembra?

By kátia mello

ele me definiu em seis ou sete frases, assim, na mesa da temakeria. numa conversa sobre postura perante o mundo. e jogou toda a minha personalidade na minha cara pelo o que diz a quadratura das estrelas e dos planetas. foi assustador. mas como astrólogo frustrado, ele até que manda muitíssimo bem. mas ele escolheu o caminho do jornalismo e ahazza, absolutamente.

lembrei de várias coisas depois dessa conversa. um monte de coisas boas, outras meio ruins.

lembrei de mim e do Paulo Henrique sentados embaixo da jabuticabeira do jardim de infância, no primeiro dia de aula de nossas vidas, em março de 1988. caraleo, isso faz 20 anos. ele chorava. eu estava ao lado dele dando força, enquanto a tia Virgínia tentava de qualquer maneira convencê-lo de que aquele lugar era muito legal. tinha um balanço em um galho da jabuticabeira, o mesmo balanço que o Júlio Neto me encontrou chorando depois de uma briga com as outras meninas da escolinha. foi a única vez que eu chorei na escola. e isso já dizia tanto sobre mim.

depois lembrei de uma tarde na casa da minha vizinha. eu devia ter uns nove ou dez anos. a gente brincava de boneca e eu fiz suco de groselha pro chá da tarde. ela jogou o suco no ralo e falou que tudo que eu fazia era ruim. pedi licença, fui pra casa, chorei copiosamente, sequei as lágrimas e voltei para a brincadeira, lânguida e linda.

anos depois, chorei numa festa de aniversário. bebi umas duas amarulas e fiquei bêbada (acreditem!). briguei com um ex-peguete que tava namorando uma cara de tomada que, sim, tinha bem mais bunda que eu. num quarto trancada com a minha melhor amiga, óbvio.

foi isso que ele disse, ali, sem papas na língua. “vocês têm que mostrar pras pessoas que são fortes. taurino é assim. chora escondido, mas não perde uma briga. são mandões. querem tudo do jeito de vocês. e não falam o que sentem.”
eu fui assim a vida inteira. não vai ser agora que vou mudar.
explique-se pelo signo ou explique-se pelo acumulado de traumas.
eu sou uma combinação dos dois.
passei quase dois anos questionando a minha capacidade de amar alguém.
no dia em que assisti Mangólia, repetia incessantemente “eu tenho muito amor pra dar, só não sei pra quem”. hoje eu pergunto quem vai arrancar o amor de mim.
eu estou no caminho errado.
e é engraçado como uma música do U2 (!!!) faz sentido agora.
acompanhe:

“I have a lover
A lover like no other
She got soul, soul, soul, sweet soul
And she teach me how to sing

Shows me colours when there’s none to see
Gives me hope when I can’t believe
That for the first time
I feel love”

ié, eu tive um amor. é aquele tipo de amor que te move para infernos e paraísos e ainda assim você pensa em casar e ter filhos com ele. eu perdi noites de sono implorando para que alguma força oculta o trouxesse de volta, para que a vida me devolvesse aqueles cabelos, cheiros e cores, aquela fé e aquela vontade de ser grande. nas cinzas das horas, aquilo não fazia mais sentido, mas ele era a referência de amor maior do mundo.

“I have a brother
When I’m a brother in need
I spend my whole time running
He spends his running after me

When I feel myself going down
I just call and he comes around
But for the first time
I feel love”

eu tenho não só um, mas muitos irmãos. com toda licença poética do mestre Vinicius, digo que “tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. (…) Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado”. eu tenho irmãos que eu amo tanto que sou capaz de ludibriar, trair, torturar e até matar pessoas por eles.

eu não sei, mas acho que isso é amor. eu devo fazer o movimento contrário. o de lembrar porque eu sofri por essas pessoas. porque eu sofri chorando no balanço da escolinha, porque eu chorei pela groselha no ralo, porque eu chorei pelo peguete que me trocou pela bunda redonda. porque eu amei essas pessoas e é essa a parte que importa. fugir do sofrimento é fugir do amor.

uma vez um senhor me disse que devemos fazer amigos quando não estamos precisando de amigos, que devemos abrir negócios quando não estamos precisando de dinheiro e que devemos amar quando não estamos interessados em ser amados. me calei. pensei nos amigos que eu não fiz, nos negócios que não abri e nas pessoas que não amei. me senti triste, porque ele tinha toda razão. porque a vida é causa e efeito. porque você recebe o que dá. e se eu estou dando minha casca mais grossa para as pessoas perfurarem, se eu estou dando meus rancores e ressentimentos, é isso que eu vou ter de volta. movimento contrário. o de voltar a sentir amor pela segunda vez. pela terceira. e por todas as vezes que eu deixei passar.

Tags: , , , ,

2 Respostas para “lembra?”

  1. Ana Disse:

    Fazia mto tempo que não entrava em seu orkut, nem sabia que vc tinha blog…
    Li todos os textos, amei!
    Bjs

  2. katianogueira Disse:

    acabei de montar! faz uma semana!
    taaantos bafos pra contar…
    beijos.

Deixe uma resposta