pensava ele no casamento, eu no futebol

By kátia mello

eu estou absolutamente viciada em Vanguart. a primeira vez que escutei a banda foi em, eu acho, final de 2006, começo de 2007. mixéu me arrastou pro Vegas “você tem que ver essa banda” e eu fazendo a Hardy a.k.a. a hiena pessimista “ai, que droga, essa banda, tá todo mundo falando dessa banda, deve ser uma bandinha dessas que tocam na funhouse de sábado blá” e lembro de algo sobre “bob dylan, johnny cash etc.” e fui. e gostei. hélio flanders é, por essência, um rock star. na época, um rock star caipira, com uma aura de rock rural, de gente que tomou muito sol e ácido na área pantanosa de cuyabá.

nunca me apeguei. confesso que Semáforo e Cachaça salvaram minha vida em diversas noitadas de fechamento naquela maldita redação, versos como “todosmeus amigos, todosmeus amigo querem morrer” e “eu vou sair, talvez te encontrar, são cinco e meia da manhã!” faziam eu me sentir menos miserável e deixavam meu peito à beira do colapso mais calmo e menos duro. mas nunca tinha escutado as outras canções nem me importado em demasia com o que hélio falava em suas músicas.

na verdade, o que mais me intriga é a fixação quase patólógica de hélio pelas terças/quartas-feiras, que ele cita em Cachaça (“pra antecipar a quarta-feira”) e Semáforo (“hoje é terça-feira e o sol se põe…”). concebi na minha cabeça, sem motivo ou por ter lido muitos contos de fada, uma idéia de que ele tinha uma namorada que ele só via às quartas-feiras, então ele suportava as terças e ansiava pelas quartas. emuxo, né?

mixéu chegou com o disco tempos depois, que eu só fui escutar numa tarde furando a parede do meu quarto pra pregar umas prateleiras e não dei muita atenção. legal, ok, indie anoznoventa, bob dylan, wilco, aquela coisa, e só uma canção me chamou a atenção de fato. Para Abrir os Olhos, com versos como “o que importa é o que te quebra em duas cidades”, “meus amigos só aparecem quando eu bebo, só aparecem quando eu não sou eu” e “o que importa é o que te faz rachar as velas, o que importa é o que te faz abrir os olhos de manhã”. se você está com seus sentimentos e vida organizados e em dia, isso pode não fazer sentido.

como ele pensava no casamento e eu no futebol, terminanos. foi aí que Vanguart fez sentido. porque é necessário que você tenha feridas, muitas feridas doloridas, bem abertas e expostas, para que as letras do hélio façam sentido. versos como “no más, quizas, encuentres fuerza en la soledad/aunque haya un diablo que te prive de tu libertad”, “Ela dizia que parecia uma despedida/Calçou os sapatos, vestiu minha roupa/Já não cabia mais”, “E eu quero esquecê-la/Renovar meu abrigo”, “Como um rio sem janeiro, meu fevereiro sem carnaval” , ” Sometimes I ache, babe/Or I ain’t hard enough to stand/But the days they just drown me” e “E o que resta é tão pouco/Como eu sou pouco contigo/Mas você em mim exagera/E és meu mais novo vacilo”, entre tantos outros, pareciam sair de dentro de mim com uma adstringência torturante.

foi aí que eu parei e escutei vanguart de verdade. nas primeiras noites, ipod na barriga, escutava até dormir pensando em como isso tudo era adolescente e frívolo, em como somos bobos e ainda acreditamos em canções de amor e de separação, em como isso ainda me fazia sofrer, em como a poesia machucava à toa.

mas, depois de alguns dias, fiz as pazes com meu peito. a vida deve ser assim, a gente sempre vai acreditar nas canções de amor, porque o amor não é uma coisa adolescente, sofrer nas separações não é uma coisa adolescente. se fosse, vinicius e tom não teriam cantado o amor, suas agruras e alentos, até o fim de suas vidas, wayne coyne e jeff tweedy não estariam aí quarentões (cinqüentões?) fazendo rocks tão bons e quase piegas de tão melados.

então, sim, se algum dia perguntarem, eu posso dizer que o vanguart de alguma forma mudou a minha relação com os meus sentimentos e quebrou uma das minhas várias camadas, mas isso é assunto pra outro post.

por enquanto eu falo que ele pensava em casamento e eu no futebol. falo que as crenças e as expectativas dele eram outras, que ele pensava na alegria e eu no feriado. e se eu disser que eu esquecia e ele não acreditar, talvez as canções de separação deixem de fazer sentido de novo.

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2 Respostas para “pensava ele no casamento, eu no futebol”

  1. Adriano Disse:

    E afinal… Esse é o texto que você reescreveu? Ou o original que você resgatou?

    De qualquer jeito… Texto foda!

    beijos
    a

  2. katianogueira Disse:

    eu reescrevi…o original foi sugado pelas forças malígnas do mundo virtual! haha
    beigada. beijos.

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